[ MECÂNICA // POR QUE ISSO SE INSTALA ]
Ninguém colapsa de uma vez.
Colapsa por dedução.
O corpo tem um orçamento diário e ele não é negociável. O sujeito acorda com uma cota de
atenção, de tolerância e de capacidade de decidir. A operação consome essa cota antes do
almoço — e o que acontece depois é dedução: tira do sono, tira do domingo, tira da
paciência com quem mora na mesma casa.
Por um tempo, funciona. É esse o problema. O empresário aguenta um, dois, cinco anos, e a
conta parece paga. Só que o corpo não perdoa dívida, ele acumula. E cobra do jeito dele:
o estalo na nuca que nenhuma massagem resolve, o ar que fica curto no meio de uma frase,
o gosto de ferro na boca quando a pressão despenca na sala de reunião a 19°C.
A leitura clínica aqui não é de fraqueza. É de assimetria: o cara está
usando a própria saúde como fiador de um CNPJ que fatura bem e depende inteiramente dele
estar de pé. Ganho linear, risco de ruína total. Nenhum investidor aceitaria essa
estrutura num balanço (poxa, mas na própria vida a gente aceita).